12/06/17

Modelo.


Não sou um modelo, nunca fui, e estarei sempre bem longe daquilo que se poderia considerar como tal. Cometi bastantes erros, aprendi imenso com eles. A vida ensinou-me a dificuldade, os meus modelos ensinaram-me a coragem. E até mesmo esses meus modelos estão longe de ser exemplos perfeitos. O erro é inato, o humano comete erros frequentemente, e a vida vai transformando-nos aos poucos.
A vida ensinou-me a sofrer, eu aprendi a ocultar a dor. Face às exigências, o ser humano sempre necessitou de criar máscaras para esconder a dor. E as minhas máscaras entranharam-se na minha carne. É mais fácil esconder o que se sente, sempre foi mais fácil sorrir que deixar as lágrimas cair.
Porque apesar de tudo o pior nunca foi a dor em si, mas sim o facto de ter de reconhecer que havia algo errado comigo. Dei de mim a quem não merecia, o meu coração acabou por arrefece, o amor poucas vezes me deu felicidade plena, mas aquele músculo vai conseguindo aprender a demonstrar aquilo que sente.
Ainda assim, nestes 23 anos de vida, tive de fazer escolhas que me transformaram e ajudaram imenso a construir aquilo que sou hoje. Alguém diferente, alguém a quem a vida ainda tem muito para me ensinar. Tenho sede de aprender, e pressa de atingir os meus objectivos.
Porque hoje não sou um modelo, mas um dia gostaria de ser o modelo de alguém.

01/03/16

#7

"Porra, tenho de ir comprar folhas" - diz Lorenzo, enquanto tira um filtro do pacote. 

Enrola tranquilamente o seu cigarro enquanto no outro lado do mundo uma criança chora a morte de alguém, ao mesmo tempo que guerras e ditadores aniquilam silenciosamente aqueles que os condenam, enquanto a nossa vida é controlada pelo estado da nação, enquanto muitos que gostariam de ficar tiveram de partir, no mesmo instante em que se ouve uma bala dirigida a alguém. 

Saindo do metro, Lorenzo acende o cigarro no caminho para casa, e nesse instante, a poucos metros dele, um suicídio na via pública, mais um para juntar aos muitos que acontecem diariamente, não adianta questionar as razões, o fundamental é tentar perceber o porquê. 
Abalado, saí do local ansioso de voltar para o abrigo da sua casa, esperando que nada de mais aconteça naquele dia. Mas aconteceu. Ainda que não tenha sido a ele, mas a alguém terá seguramente recebido a visita do azar, alguém que parte sem se despedir, uns que nascem em segredo, outros que estão deitados no chão ao lado da mãe. 

Nesta vida um instante pode mudar a tua vida, do nada o que era tudo passa a valer pouco, por isso de que vale pensares que amanhã podes não acordar, pois muitas vezes viver é um verbo que nem todos conhecem, pois muitos já se limitam a conhecer o verbo sobreviver. 

12/09/15

#6

Com uma palavra relembro momentos que marcaram o que fui, o que ainda continuo a ser, pois esta viagem está longe de se concluir. Que o caminho prossiga triunfante. Sendo os pequenos nadas as maiores vitórias possíveis. Pois quem esteve no fundo sabe como cada pedaço de luz é fundamental. Vou continuando a alimentar o meu coração de bons sentimentos, pois os nefastos já estão mais que presentes, para que o meu intelecto não desista de mim. Para poder avançar nesta estrada, onde o pouco vale muito, e o muito deixou de interessar.

05/08/15

#5

Continuo divagando pelas ondas do destino, tropeçando a cada falha desta longa estrada em que vou caminhado. Vou conhecendo novos horizontes, novas cores vão preenchendo esta tela que outrora era dominada pelas trevas. Se tudo terminasse hoje, iria feliz, incompleta, mas feliz, pois cada pequena vitória contribuiu para alcançar os objectivos que tantos julgaram ser meros devaneios de adolescente rebelde.

Hoje quem me viu no fundo reconhece que renasci das cinzas e virei costas ao que me matava aos poucos e poucos. A batalha está longe de estar vencida, porém o caminho a percorrer já foi mais longo.

Desistir? Sim, houve momentos em que pensei em abandonar tudo e regressar à vida de outrora mesmo sabendo que isso não seria possível porque já não sou a mesma, deixei de encarar a vida com o fatalismo de outros tempos, abri de novo a porta aos sentimentos, mas sobretudo ganhei coragem para enfrentar todo o mal que havia em mim, todo o mal que havia naquele mundo que deixei para trás. Há dias em que não é fácil suportar a rotina e os sentimentos de outros tempos voltam a invadir o meu peito, e os meus olhos voltam a escurecer de dor. E quando penso em desistir olho para as estrelas e busco conforto na luz dos que nos deixaram para iluminar a escuridão daqueles dias.

Abdiquei de muita coisa para poder atingir os meus objetivos, ainda assim sei que tudo o que perdi e o que se foi perdendo só me mostrou quem vale a pena confiar, pois só quem me viu no chão merecerá estar a meu lado quando chegar ao topo e ganhar a batalha mais importante da minha vida.

20/05/15

Noites

Eu sinto a solidão do meu coração. Sinto com a ansiedade de uma primeira vez. Vejo o mundo e sinto-me diminuta. Com este coração paralisado pela primeira vez. Tudo se move e eu vou observando, sem forças para avançar. 
Não julgo que este seja um estado desagradável, o meu coração suportou bem mais, como um Viriato destemido, este é um estado de aprendizagem, coisa tão rara, que se torna prazerosa. Estou perdida, mas aprecio este estado, o desconhecimento sempre nos apresenta algo de novo. 
E eu só quero aprender, pois sei que ao parar, a minha alma vai perder-se.

25/04/15

#4

Os anos passam depressa. Há uns anos atrás não sabia que rumo dar à minha existência, não via outras cores para além do negro dos meus olhos, que já estando abertos para a vida, tinham perdido o tom castanho de origem. O tempo passa e nós vamos vendo o tempo passar sem saber o que fazer. 
Será que hoje sei o que quero fazer? Muitas das minhas questões não foram respondidas, creio que algumas vou desconhecer eternamente a sua resposta. 

04/04/15

Un jour j'ai pensé à toi.

Um dia lembrei-me que estavas lá. Tudo era cor, tudo era emoção.
Hoje as cores são menos nítidas, a emoção permanece, mas não como dantes, como se tudo não passasse de uma construção, metáfora de algo que não vivi. 
Devo-te o fechar do livro, as cinzas que surgiram após queimá-lo, cinzas que deitei aos primeiros ventos da primavera. Foste realidade, resta agora a nuvem que desapareceu diante dos meus olhos que se perderam a contemplar as nuvens. Foste algo, hoje não és coisa nenhuma.

28/03/15

Não somos todas Lindas de Suza

É verdade, nascemos num país complicado. Belo mas assaz complicado. Os outros povos preferem cercar-nos de clichés, criando uma amálgama, que (tal como todas as amálgamas) é falsa, ao invés de tentarem compreender-nos. 
Não temos pilosidade abundante, muitas de nós nem comem bacalhau, não intercalamos o impropério que nos caracteriza a cada frase. E sobretudo não somos todas porteiras ou empregadas da limpeza. Porém temos um enorme orgulho nessas guerreiras de vassoura na mão e sangue quente nas veias. 
Algumas de nós querem ser enfermeiras, outras professoras, algumas sonham bem alto com um regresso à pátria-mãe.
Poucas de nós, da recente vaga de emigração vieram sem formação, com uma "mala de cartão" e um recém nascido nos braços. Nós trazemos diplomas, mesmo que seja do Ensino Secundário. Trazemos os métodos de trabalho de um país que não nos deixou ficar.
Mas continuamos saudosas, com um laivo de subserviência, com valores que nos são extremamente próximos. E que adoramos partilhar.
Somos portuguesas, o fatum está no nosso código genético mas não somos todas Lindas de Suza. 

07/03/15

#3

Fechar as portas, curar as feridas, coser a sangue frio a carne já tão dura, esse é o passaporte ideal para o futuro. Rindo ou chorando, quiçá deambulando ou perdendo-se pela penumbra, esse olhar tem de se focar no outro lado. A morte é certa, seguramente. 
Porém que ela não te faça sofrer, nem se atreva a fazer-te parar.
Que o sonho não se apague dessa mente, que o amor não te condene a uma frieza colossal, a um mundo sem cor.
Virar as costas é a chave do futuro.

14/02/15

Cap. IV

Um dia perceberás que o mundo perdeu a constância. E a consistência. Que tudo o que era azul se tornou negro como a cor dos teus olhos. Os melodramas vão parecer-te quebra-cabeças para crianças, pois com esse raciocínio voraz vais perceber que cresceste. Que o sal das tuas lágrimas se tornaram acres e a tua voz ácida, como aquele veneno que te toca nos lábios a cada beijo.
Já não és constante, muito menos consistente, perdeu-de a arrogância, veio a distância que te tortura. E o nome que sopras ao ouvido de quem já foi teu. Do que a infância te tirou. Acordaste do sonho, compreendeste a vida. Como a droga que te corre nas veias depreendes que a vida é uma viagem. E tu perdeste-te pelo caminho. Encontra-te. Torna-te coerente, constante e consistente e a tua vida vai ganhar a paz da felicidade. 
A dor? Essa está marcada na tua carne como uma tatuagem, não a perdes e ela não vai desaparecer. Vai crescer. Como tu.