25/04/15

#4

Os anos passam depressa. Há uns anos atrás não sabia que rumo dar à minha existência, não via outras cores para além do negro dos meus olhos, que já estando abertos para a vida, tinham perdido o tom castanho de origem. O tempo passa e nós vamos vendo o tempo passar sem saber o que fazer. 
Será que hoje sei o que quero fazer? Muitas das minhas questões não foram respondidas, creio que algumas vou desconhecer eternamente a sua resposta. 

05/04/15

Un jour j'ai pensé à toi.

Um dia lembrei-me que estavas lá. Tudo era cor, tudo era emoção.
Hoje as cores são menos nítidas, a emoção permanece, mas não como dantes, como se tudo não passasse de uma construção, metáfora de algo que não vivi. 
Devo-te o fechar do livro, as cinzas que surgiram após queimá-lo, cinzas que deitei aos primeiros ventos da primavera. Foste realidade, resta agora a nuvem que desapareceu diante dos meus olhos que se perderam a contemplar as nuvens. Foste algo, hoje não és coisa nenhuma.

28/03/15

Não somos todas Lindas de Suza

É verdade, nascemos num país complicado. Belo mas assaz complicado. Os outros povos preferem cercar-nos de clichés, criando uma amálgama, que (tal como todas as amálgamas) é falsa, ao invés de tentarem compreender-nos. 
Não temos pilosidade abundante, muitas de nós nem comem bacalhau, não intercalamos o impropério que nos caracteriza a cada frase. E sobretudo não somos todas porteiras ou empregadas da limpeza. Porém temos um enorme orgulho nessas guerreiras de vassoura na mão e sangue quente nas veias. 
Algumas de nós querem ser enfermeiras, outras professoras, algumas sonham bem alto com um regresso à pátria-mãe.
Poucas de nós, da recente vaga de emigração vieram sem formação, com uma "mala de cartão" e um recém nascido nos braços. Nós trazemos diplomas, mesmo que seja do Ensino Secundário. Trazemos os métodos de trabalho de um país que não nos deixou ficar.
Mas continuamos saudosas, com um laivo de subserviência, com valores que nos são extremamente próximos. E que adoramos partilhar.
Somos portuguesas, o fatum está no nosso código genético mas não somos todas Lindas de Suza. 

07/03/15

#3

Fechar as portas, curar as feridas, coser a sangue frio a carne já tão dura, esse é o passaporte ideal para o futuro. Rindo ou chorando, quiçá deambulando ou perdendo-se pela penumbra, esse olhar tem de se focar no outro lado. A morte é certa, seguramente. 
Porém que ela não te faça sofrer, nem se atreva a fazer-te parar.
Que o sonho não se apague dessa mente, que o amor não te condene a uma frieza colossal, a um mundo sem cor.
Virar as costas é a chave do futuro.

14/02/15

Cap. IV

Um dia perceberás que o mundo perdeu a constância. E a consistência. Que tudo o que era azul se tornou negro como a cor dos teus olhos. Os melodramas vão parecer-te quebra-cabeças para crianças, pois com esse raciocínio voraz vais perceber que cresceste. Que o sal das tuas lágrimas se tornaram acres e a tua voz ácida, como aquele veneno que te toca nos lábios a cada beijo.
Já não és constante, muito menos consistente, perdeu-de a arrogância, veio a distância que te tortura. E o nome que sopras ao ouvido de quem já foi teu. Do que a infância te tirou. Acordaste do sonho, compreendeste a vida. Como a droga que te corre nas veias depreendes que a vida é uma viagem. E tu perdeste-te pelo caminho. Encontra-te. Torna-te coerente, constante e consistente e a tua vida vai ganhar a paz da felicidade. 
A dor? Essa está marcada na tua carne como uma tatuagem, não a perdes e ela não vai desaparecer. Vai crescer. Como tu.

17/01/15

Uma folha perdida

Gosto de escrever cartas. Gosto simplesmente de escrever. Do deslizar ritmado da caneta no papel. Da soberba alegria de ler o que da minha mente saiu, mesmo que por vezes o que esteja no papel não parece ter sido escrito pela mão trémula que vai sendo guiada pelo roteiro da vida.
A vida nas suas incongruências celestiais.
Escrever e não acreditar no que foi escrito. Parece louco, mas a vida peca por defeito de coerência. E sem perceber, mais uma página se encheu, mais um tumulto da alma que ficou agarrado a um papel. 
Procuro ter sempre uma folha de papel comigo, não vá a tempestade perder-se nos meandros dos meus pensamentos. Pois penso em tudo, ao não pensar em nada, e muitas vezes grandes ideias foram condenadas ao absoluto esquecimento porque não tinham um berço pronto a acolher estas pueris divagações de quem pouco sabe da vida. Apesar de já a conhecer o suficiente. 
Num vendaval, o nosso natural instinto de sobrevivência faz-nos agarrar a pequenas coisas. A prender-nos a algo para salvar a vida. E eu agarrada a uma folha de papel perdido. Tão perdido quanto eu? Não sei, só há uma coisa em que acredito piamente. Acredito que gosto de encontrar uma folha perdida ao acaso no fundo da minha mala e de nela debitar palavras. Palavras com história, ideias sem rumo. Contudo eu gosto de escrever, sobre tudo e para todos. Principalmente cartas. Como eu gosto de escrever cartas...

06/12/14

#coraçãolimpo

Hoje acordei com o coração mais limpo que nunca. Não senti o habitual sangue das minhas feridas a massacrar-me a carne. E dos meus olhos não escorregas as lágrimas que me iam purificando a alma. 
Acordei com um novo músculo a trabalhar no peito. Quem sabe se não era este o dia que a minha mente anseava.
 Não acordei diferente, simplesmente acordei. Será que é a simples partida de um amor que nos provoca estás coisas? Não, o amor por si só é algo positivo, contudo quando se esfuma e é substituído pela raiva, esta história muda de perspectiva. 
Por isso,  hoje acordei com o coração mais puro da minha existência. Por mera vontade de seguir em frente ao leme da fragata que conduz o meu sonho.
Acordava chorando, adormecia sorrindo. 
Hoje acordei sorrindo, porém desconheço se adormecerei embalada pelas lágrimas. 

04/12/14

Sendo.

Nas noites cintilantes em que o silêncio sonoro deste lugar me envolve, vou crescendo. Vou aprendendo a cada dia a contemplar este território inigualável, a conhecer as novas cores deste arco íris que é a vida. Esta paisagem é diferente de todas aquelas que alguma vez tive hipótese de vislumbrar. Esta ausência de som confere-lhe uma mística incomparável, que poucos conseguiram apreciar. É este o céu dos sonhos que me consomem, que, pela sua imponência o intelecto não apaga? Será talvez a distância do meu Oeste iluminado.
Sou em estado puro a cada passo em direcção ao abismo, a cada frase que gravo nesta folha de papel perdido, a cada ideia que condenso num texto simples, mas complexo. Vou sendo tudo aquilo que a minha mão quiser que seja. Posso ser triste, alegre, depressiva ou histérica, somente seguindo o fluxo desta caneta que liga este cérebro a esta folha incoerente.
Vou sendo com a vontade de ser o orgulho dos que estão aqui e daqueles que deixei no meu paraíso. Também daqueles que já estão juntos do outro lado à nossa espera.
Sou diferente daquela que deixou um paraíso luso para trás, infiel ao egoísmo, mais astuta que outrora. Abrindo os olhos para a verdadeira essência do ser humano, fiel aos que nunca me viraram as costas.
Por eles um dia me levantei, por eles vou levantando a cabeça e avançado, mesmo que alguns passos custem a dar, eu sei que a cada queda estão do meu lado. Se não tivesse vencido, se tudo não tivesse passado de fracassos, eu sei que as vossas palavras iam levantar-me de novo, como todas as outras vezes.

Com vocês e por vocês vou sendo. Seguindo orgulhosamente fiel ao líquido que me corre nas veias.  

15/11/14

Adeus.

A noite corria alta. O meu coração estava certo que seria a última vez que nos iríamos ver. O teu sorriso, ainda me dói ao lembrar, era a coisa mais bonita que alguma vez tinha visto. 
Mas era sujo, de uma impureza tão grande quanto tu. Terias medo de amar? Ou eu era bem menos do que julgavas? Sim, eu avisei que era diferente. Talvez tenha colocado a nossa história em xeque justamente por te ter revelado semelhante pormenor. 
Logo, foste embora, sem olhar para trás uma derradeira vez, deixando-me com o gosto amargo do nosso último beijo. Ao mesmo tempo que te olhava com a vaga esperança de um recuo, enquanto acontecia o inevitável, uma pedra engolia metade do meu coração. 
Sabes, esta pedra continuará neste meu peito dormente e dorido. Enquanto espero que encontres a tua felicidade, independentemente de não ser ao meu lado. 
Fiquei com a apatia, contudo não te preocupes, ela é minha companheira, é ela que me fez olhar para as palavras que encontrei escritas num papel perdido e sorrir:
  
J'aimerais lui dire que je l'aime. Je voudrais qu'il sache qu'un simple mot de sa part me guerrisait les blessures. Mais ce n'est pas possible. J'ai un défaut capital. L'orgueil. Un des sentiments le plus dangereux chez l'être humain. Avec lui on gagne tout, et on perd autant que ce qu'on a gagné. Et fièrement je t'ai laissé partir. Parce que je sais que j'ai sauvé mon cœur de la suprême douleur de l'amour.

Hoje viro a página desta história que tanto me ensinou, de onde a menina que te conheceu um dia, tornou-se a mulher que te será desconhecida. 

04/10/14

Ce soir

J'aimerais pleurer ce soir. 
Je voudrais profiter de l'effet cathartique des larmes, mais je n'arrive pas. 
Je voudrais condenser ma douleur dans une larme, concentrer ma souffrance dans un soupir. Je n'arrive pas.
J'essaye, mais cet état d'hypothétique joie a effacé ma capacité de pleurer, même si quelqu'un m'a fait du mal, même si mon cœur est brisé ce soir, les larmes n'écoulent pas dans mon visage. 
Mais je souffle encore, je relève la tête, et je donne le prochain pas. 
Peut être qu'un jour mes larmes puissent écouler et faire disparaître cette douleur qu'est en moi aujourd'hui.


O primeiro (de muitos, quem saberá), na língua de Molière.