22/03/13

Aquela rotina assassinava todos os dias daquela criança. Todos os dias iguais. Estáticos, como aquela melodia que lhe invadia os ouvidos ao acordar – o bip louco do despertador que a retirava atrozmente do mundo dos sonhos. Decidiu arriscar na diferença – deixar aquele despertador tocar para o vazio – e nem sequer ousou abrir os olhos. E ele tocou, durante uma hora, em intervalos passageiros de 10 minutos, até parar. E aí ela saiu triunfalmente da cama, ignorando o relógio, ignorando todo aquele tempo que a condicionava. Era um dos dias mais completos em termos de aulas, não a preocupou, tinha duas provas, nem quis saber. Só queria aproveitar a liberdade de um dia diferente, sem rotinas. Aproveitou aquele dia para fazer tudo o que não fazia – correr, sonhar, pensar. Sobretudo pensar. Porque os seus dias eram feitos de rotinas e não de pensamentos. E o despertador tocou, e na mente dela surgiam pensamentos. Em estado puro. Verdadeiros como ela.

Atelier de escrita, 22\03\2013, Université Paris-Sorbonne.

Muito obrigada meninos, por me ajudarem a quebrar o gelo da insegurança, e revelar a melhor parte de mim. LLCE Portugais toujours!

20/03/13

Há dias em que o sol invade a nossa mente, outros em que a penumbra brilha no nosso olhar, nenhum dia será igual ao outro. Não exigas de ninguém aquilo que nem mesmo tu sejas capaz de fazer, render-te ao cinismo fácil, a pré-formatação dos teus sentimentos. Não tens de ser o centro das atenções todos os dias, não tens de ser um poço cínico de simpatia, tens de ser tu próprio. Exige isso de ti, e de quem faz parte da tua vida, pode ser pouco, mas os teus dias ganham outra cor. - DH

12/03/13

One year later...

Não me saíste do pensamento, e duvido que alguma vez saías. Neste ano em que vivenciei as maiores conquistas da minha existência, estiveste mentalmente em todas as pequenas e grandes vitórias. Terminei triunfalmente uma das batalhas mais importantes para um aluno, o Secundário, e avancei em direcção a um novo rumo, a faculdade, num outro país, e não poderia estar mais feliz da minha decisão. Já passaram 6 meses desde que fechei a porta do meu paraíso português e embarquei rumo às terras da Gália. Arrepender-me? Nunca. Por mais difícil que tenha sido a adaptação, foi conseguida, e vai sendo construída ao longo dos dias que vão passando. Com ela aprendi a sentir o sabor da saudade em estado puro, aquela saudade tão amarga, mas tão portuguesa.  Um ano depois ainda sinto a tua falta, ainda sinto o choque de quando soube que não te voltaria a rever, ainda relembro todas as lágrimas que chorei, mesmo que aos olhos de outros tenham sido falsas, sem uma qualquer réstia de sentimento, mas posso afirmar que aquela que chorou diante de ti era a mesma pessoa que escreveu estas palavras, quiçá num estado mais puro, muito pouco racional. Sinto falta da tua presença, mesmo à distância, sinto falta da tua subtil preocupação de avó, que me fazia rir, que aos 12 dias do mês de Março de 2012 me fizeram chorar no silêncio de uma de muitas noites que passei em claro com a tua presença no meu cérebro consciente. Não julgues que me esqueci de ti, não julgues que deixou de doer ao falar de ti, que as lágrimas deixaram de cair. Sim, serás uma das poucas razões que me conseguem fazer chorar.  E vai continuar a fazer, pelo menos até está ferida de saudade deixar de doer. I miss you Gramma.

05/03/13

Eu nasci Portugal.

Julgo fazer parte desta geração que se crê sem nação. Onde abandonar a pátria-mãe em busca de uma nova oportunidade de vida está ao alcance de todos, contudo a vontade de partir ficou para alguns. Chamo-lhes bravos. Abandonei o meu país de sol e mar, com o desejo de um dia voltar e tentar saudar a dívida com a minha terra, a dívida de me criar, a dívida de me instruir, a dívida de me ter tornado “orgulhosamente lusa”. Gostaria somente de ter a chance de voltar ao local onde um dia nasci e ficar, não no fim do percurso dos anos que nos destruíram o corpo, mas enquanto tiver força de viver, sonhos a inundarem o meu espírito, conhecimento a rodear-me o intelecto. Nasci na pátria destinada a poucos e condenada por muitos, jamais me arrependerei de fazer parte daquela sociedade, mesmo que pequena, generosa demais e tão subserviente, nasci portuguesa, e deste país saí em busca de um novo mundo, no entanto espero um dia regressar e ver aquele meu cantinho quente e salgado marcar-me de novo a carne com os traços do seu fado, com o orgulho da nação da saudade. Fazes-me falta meu país, fazes-me falta Portugal.